14 de jun de 2013

Sobre protestos: não estou entendendo nada

Os últimos acontecimentos, sobretudo no Rio e em São Paulo, mexeram muito comigo. De modo que estou agora tentando entender, minimamente, o que tem gerado esses protestos que inicialmente seriam apenas contra o aumento da tarifa das passagens de ônibus. Uma coisa eu preciso deixar claro:  tenho aversão aos modismos, ao hype. Tem alguma coisa em mim, que realmente não nasceu para pensar coletivamente, não é intencional, pelo contrário; gostaria de ter o alívio de remar com a maré e estar amparada confortavelmente em uma ideia compartilhada. Mas sempre há algo que me incomoda em uma "voz uníssona". Fico um pouco pasmada "que bobeira, como que ninguém vê isso?"

Durante os últimos 10 anos que morei no Rio de Janeiro fui usuária de ônibus e achava o serviço  ruim e caro. Mas não conhecia coisa melhor e precisava tocar a vida. Às vezes, queria voltar pra casa e tinha que esperar uns três ônibus pra poder entrar em um que desse pelo menos para ficar em pé. A sensação era de frustração mesmo, você se sente mastigado e engolido. Dá vergonha.

esse era o ônibus da minha vida 455 - Méier Copacabana

"por que eu sou tão miserável?"

Ok, sou dramática, mas ficava olhando na cara daquelas pessoas com o rosto totalmente impassível ou resignado talvez. É como se o ônibus fosse um lugar onde as pessoas estivessem para explodir a qualquer momento: pela proximidade obrigatória com estranhos, pelas condições do trânsito e do desconforto de
passar mais de uma hora dentro de um coletivo. Vi várias vezes passageiro discutindo com o motorista ou com o cobrador.Aí eu ficava fazendo as contas mentais do salário do motorista e da pessoa que estava discutindo com ele, - uma estimativa louca, claro - e achava: esses dois juntos não ganham 3 mil reais, como será que ganhando tão pouco eles conseguem viajar, conhecer as coisas, comprar comida fruta e verdura pra família? Aí achava "tá tudo errado" e ficava meio deprimida.





Em alguns momentos desconfio que as pessoas desejam mais parecer do que ser. Como se talvez o mundo fosse um grande complô da falta de autenticidade. Se isso que penso realmente acontece, seria o quê? Pós-modernismo? Sei lá... Então pra entender melhor as coisas fui nas "revolucionárias redes sociais" na maior delas, o Facebook. Mas antes: olha que coisa louca que acabei de pensar, as pessoas estão falando muito do George Orwell, claro, do Animal Farm e um pouco do 1984 devido ao fato de que o Obama lê o que mando no gmail. Já pensou no Facebook como o ~Big Brother~? Tá bom... é puramente simbólico. Mas se o Facebook tem nossos dados e se a partir de agora agimos conforme os compartilhamentos dele, hein hein...? ÉEEE.

estou observando vocês

Estava falando que fui ao Facebook...Ah sim, fui dar uma espiada nas páginas dos movimentos que estão em alta. Eu achei essa página chamada Mobilizados. Inicialmente não deu pra entender muito bem o que defende o Mobilizados, então encontrei esse post e nele diz que o Mobilizados nasceu do...

"Nascemos do nada, na esteira de três projetos FODAS que só temos a agradecer."

São esses movimentos aqui,




Existe Amor em SP: eu li até o final conforme pedem, a descrição do grupo - que fazem questão de deixar claro que não são vinculados do Partido dos Trabalhadores e nem ao Coletivo Fora do Eixo.  As reivindicações são: direito dos camelôs trabalharem, melhores salários para os professores, tarifa de ônibus e a "virada cultural mensal". A explicação contraria a matéria do Estadão, que liga o pessoal do Existe Amor em SP à administração pública municipal. Na matéria do Estadão diz que Rodrigo Savazoni, um dos criadores da Casa de Cultura Digital, é o chefe de gabinete de Juca Ferreira, secretário municipal de Cultura. Na explicação do Existe Amor em SP eles só esclarecem que não tem ligação com o coletivo Fora do Eixo, porém o profissional citado é de outro projeto, o Casa de Cultura Digital. De forma que não entendi se o rapaz era inicialmente do Existe Amor em SP e não é mais, se nunca foi ou se somente se aproximou do movimento durante um breve espaço de tempo.




Ok

Movimento Passe Livre SP: pelo que eu vi é o mais coeso desses movimentos. "toda vez que aumenta a tarifa do ônibus, esta exclusão aumenta também. ao mesmo tempo, é importante enfatizar que, mais que lutar contra o aumento da tarifa, lutamos contra a existência de uma tarifa. o sistema de Transporte precisa ser totalmente reestruturado, de modo que as tarifas não continuem aumentando, excluindo cada vez mais pessoas." Ok. como aconteceria o novo formato do Transporte Público? Seria estatizado? Haveria licitações? Concursos públicos para motoristas? Quem pagaria essa conta? AHÁAAAAAAA. Aí é que pega, eles propõem dentre outras medidas, o aumento do "IPTU para shoppings e bancos". Eu reconheço que São Paulo tem disparidades sociais que fazem as pessoas se sentirem atropeladas como aquele Shopping em Higienópolis esquisito, mas eles rendem dinheiro e geram emprego. No entanto, vejam uma coisa: o trabalhador tem sua passagem paga pelo empregador, o empresário do shopping, de onde "deve ser aumentada a tributação..." Em relação aos estudantes, ah sim, eles sim. Estudei em faculdade particular, que eu pagava. Além da mensalidade tinha que separar o dinheiro do ônibus, o correto era que eu pegasse dois ônibus para ir e dois para voltar, para que fosse no conforto e não precisasse andar tanto. Mas só me dava a esse luxo até a metade do mês. Nos dias seguintes ao dia 15, pegava um ônibus só e andava cerca de um quilômetro pra chegar em casa. Fui assaltada duas vezes, tive que tirar documentos de novo mas é isso aí. É viável abolir a tarifa de ônibus? Eu não acredito nisso e um especialista em administração pública provavelmente também.

Morei em Recife durante 20 anos e lá tem um projeto que sempre achei muito adequado: o Passe Fácil, hoje é chamado de "Vem" mas consiste em um subsídio parcial do município para a passagem dos estudantes: tanto das escolas e universidades públicas quanto para as particulares. Quando
usei em 2001/2002 achava muito bom. No Rio, há o RioCard - um benefício total na tarifa, porém somente para escolas públicas.


ok


Movimento N I N J A  ;  (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). É interessante propor que os jornalistas façam cobertura de forma independente, narrando sem a interferência da política editorial de algum veículo. Mas, na primeira reunião do N.I.N.J.A (aqui) diz o seguinte;  "Semana que vem, terça-feira, dia 11 de junho*, vou ajudar a promover junto com o Fora do Eixo e o Existe Amor em SP"


EEEEEEPAAAA,


Mas se o Não Existe Amor em SP não é ligado ao Fora do Eixo que é ligado ao PT -  fui em um festival organizado por eles no Acre em 2009 - como podem estar juntos em alguns movimentos? Como eu saio na rua do seu lado para manifestar com você e depois não quero que nos liguem um ao outro? Complicado hein... Não me sinto confortável em apoiar .Uma coisa é jornalista trabalhar em secretarias ou no sistema político, outra coisa é ser partidário. Eu nunca achei que fosse a função do jornalista ser partidário. Acho que não cabe à profissão.

Na internet, esses coletivos lideram a movimentação das concentrações e, somente o Movimento Passe Livre SP me pareceu ser objetivo. Tem o meu apoio, por tudo o que já passei com o transporte público. Mas esqueçam, pelo menos não acho viável, a tarifa zero. Vai onerar alguém. Eu mesma tenho uma pequena empresa, pago ISS (o imposto municipal que vocês querem que aumentem apenas para "bancos e shoppings" esquecendo que a economia é uma ~cadeia~) no conglomerado facilitador para pequenas empresas, o Simples.

Ah, eles falaram sobre o IPTU... sorry.


*Amigos, pensem um pouco nos pequenos empresários que vendem para os shoppings. Eles movimentam muito para a economia desse país. A tributação já é pesada demais, confia.



O transporte é ruim? É péssimo. Precisa ser repensado porque a passagem é cara, e os trabalhadores do setor são mal remunerados - o que são esses micro-ônibus em que o motorista além de dirigir tem que fazer a cobrança? O trabalhador CLT, tem sua passagem arcada pelo empregador e, realmente, os mais afetados são os estudantes (tem filho de PM no meio também) que precisam ter uma dedicação ao estudo e arcar com as despesas referentes. Fica muito pesado. Digo por mim e por todo mundo que já desejou enfrentar essa jornada pra sabe-se lá.... chegar em algum lugar: na vida, em um bairro ou em uma cidade dormitório.






Um comentário:

acampanate disse...

O raciocinio corretissimo que vc faz que muita coisa pode e deve ser mudada e melhorada mas porem todavia nao existe almoco gratis, nao eh romantico por isso ninguem quer ouvir. Eles querem eh, mais que tudo, se emocionar e cantar o hino nacional com o peito estufado.