14 de nov de 2012

A mãe é quem sabe (um pedido de respeito)

se puderem, assistam esse filme



O Facebook...sempre ele. Lugar de militâncias efêmeras... o que posso dizer do Facebook? (Nada que eu não tenha dito no post anterior). Um lugar onde me disseram, ontem, que eu não tinha "a real noção de ser mãe" porque após 12 horas agonizantes de um trabalho de parto sacrificante decidi e assinei um termo onde permitia que fizessem uma cesariana e acabassem com aquela dor pungente. Sim, eu levaria uma injeção que paralisaria as minhas pernas, cortariam a minha barriga e retirariam o bebê, rápido e indolor, opção minha, de uma mãe chamada subjetivamente de "incauta" por uma mulher com doutorado em ciências sociais e que teve quatro filhos de forma "natural" e em seus peitos as crianças mamaram até um ano. Reproduzo o comentário dessa senhora que para azar ou sorte dela - quem pode dizer se não ela mesma? - pariu seus filhos nos conformes da "ancestralidade" 

Comentário da Senhora Carolina, no Facebook em uma thread em que falávamos de parto e eu defendia o direito da mulher não ser julgada por ter feito uma cirurgia cesárea

" Puxa gente! Adoraria entrar nessa discussão mais tô revendo as minhas video-aulas para o curso de educação para as relações etnico-raciais e tem a tese bla , bla bla, mas olha: eu pari 4 filhos amamentei os 4 até 1 ano e meio e poderia falar com "justa causa", mas a verdade é que o que parecem escolhas são determinações de uma concepção de homem, mundo, sociedade e cultura que inculcam na gente e a gente acha lindo ficar reproduzindo pré-conceitos, bem vamos aos FATOs, o que as pesquisam dizem: uma grande porcentagem de crianças que nascem de césarea tem problema respiratório, a maioria das mulheres não fazem cesárea porque acham que não agradarão os seus parceiros sexualmente pois pensam que ficaram com o canal da vagina maior, (isso é ignorância), a recuperação do parto normal é muito melhor, o leite desce mais rápido, blá blá blá, se é melhor pra mãe e pro filho e a anestesia não tira a dor da contração, porque as mulheres acham lindo fazer mal pra si e para o seu filho? Porque não tem a real noção do que é ser mãe, que a criança não é boneca, vai ser só mais um número para o mercado consumidor de papais e mamães sem consciência que colocar um filho no mundo é ter o seu coração andando por aí fora do seu corpo. Isso não é doutrinação, isso é conhecimento e sabedoria ancestrais."

Carolina, se você quer parir um time de futebol na banheira da sua casa e você curte isso, eu fico honestamente feliz em saber que existe mais um ser humano realizado nesse Brasil, de verdade. 

Geralmente, essas pessoas que pesquisam e que se consideram evoluídas por estarem reproduzindo os métodos da ancestralidade são a favor do aborto, claro. Também sou, mas veja: o que a mulher em sua concepção feminista frisa é "a mulher é dona de seu corpo e por isso tem o direito de escolher se vai ou não conceber uma criança". Ok, mas peraí se a mulher pode escolher entre abortar ou parir por que é criticada na forma que escolhe como parir? Tem algo desconexo aí.

Sabe, se eu pudesse descrever aqui a dor do parto que eu senti durante metade de um dia eu descreveria como: a pior dor de barriga que uma pessoa pode sentir na vida. Ela não dá descanso, vem de 10 em 10 minutos e vai apertando o cerco até que você quer urinar e não consegue, quer beber água e não consegue, as pessoas ficam tentando te acalmar mas elas não estão sentindo aquilo tudo e você fica, eu fiquei, com vontade de dar um soco na cara delas, menos na da minha mãe. Minha mãe escolheu que eu tenha nascido no dia 2 de fevereiro, uma data que adoro, ela marcou e pediu uma anestesia, foi lá no hospital e me teve, se muito me amamentou foi uns três meses, depois me deu banana amassada e eu nunca tive absolutamente nenhuma doença grave nem me sinto menos amada pela minha mãe. 

Segundo a medicina, o tempo mínimo para amamentar um bebê é de seis meses, e sim, é extremamente importante o leite materno para o bebê, não há dúvidas. Mas ó que crime: há mães que não gostam de amamentar e não querem uma criança de um ano nos seus seios. Dá licença? Amamentei seis meses, nunca gostei de amamentar, achava chato, não gosto de expor meu peito em público, mas pela saúde da minha filha e em um dos meus primeiros de muitos sacrifícios maternais, o fiz, com amor evidentemente. 

Não é desconsiderado aqui que para os médicos é mais lucrativo o parto cirúrgico e que isso pode ser levianamente induzido para a mulher. Mas há as escolhas e há quem escolha não sentir contrações, há quem não tolere dor e há quem simplesmente queira optar por uma cesariana  Felizmente, algumas mulheres tem acesso a essa escolha e elas não merecem ser rotuladas de incautas e ter sua maternidade e o amor de mãe postos em cheque por isso. Inclusive eu considero essa manifestação agressiva de opinião extremamente esnobe. Fora que para argumentar sempre tem aquela máxima "mas nos países evoluídos...", sim, estamos em Papua Nova Guiné e aqui dispomos de muitos hospitais para com UTI para bebês, que louco, né?

Se algumas mães - a mulher brasileira em sua maioria- tem que voltar a trabalhar, chegam em casa cansadas e não podem salvar o planeta utilizando fraldas de pano, se não podem optar por frutas e papinhas orgânicas porque essas são bem mais caras, não devem se sentir culpadas porque continuam sendo mães e a sabedoria materna não vem em rótulos e experiências pessoais de doutorandas de ciências sociais, elas surgem nas adversidades e desafios da maternidade. Se os pais querem ir pra Miami comprar o enxoval, se querem comprar um estoque de fraldas da Mônica, se querem fazer todas essas coisas que vão contra a "ancestralidade" dita pela Senhora Carolina, devem ser respeitados. A mim parece injusto que essas pessoas que, em sua concepção estão fazendo o melhor para seus filhos, sejam chamados de ignorantes por quem ainda acha que usar a expressão "pré-conceito" é descobrir a luz elétrica.

Eu vejo o mundo como uma bexiga que de tempos em tempos infla e murcha. Tenho a impressão de que quando não há leis que enquadrem as pessoas, elas tentam se "autoenquadrar" dizendo aos outros como agir e o que é melhor para eles sob diversos pretextos, o mais novo deles é "é porque você não é informado e eu sou". Ora, estamos no Bric, a mesma internet que você partilha eu partilho também, posso pesquisar o que eu quiser, mas jamais dizer, em tempo algum, que o que funcionou para mim é o que vale, que questões que estão literalmente na moda - o tal Zeitgeist -  seja o que funciona para todo mundo, as pessoas seguem os seus caminhos distintos. A maternidade, como as opções que se faz na vida e as ideologias são questões que se desenvolvem de forma extremamente individual, quase íntima... É basicamente uma questão de respeito.
Essa aqui é a vítima do parto cesariano minha filha Valentina, com 12 anos




Update desse post

Após eu ter escrito esse texto, a Senhora Carolina apagou o posicionamento sobre as maneiras de dar a luz do Facebook. O típico. Infelizmente, não fiz print apenas copiei e colei aqui Ipsis Literis. No entanto, o Sr. Abílio, que viria a ser o marido da Senhora Carolina, me enviou essa mensagem por meio do perfil dela. Essa eu printei. Senhor Abílio, já lhe respondi na mensagem que sua esposa em nenhum momento foi ofendida, que a constituição federal permite a liberdade de expressão desde vedado o anonimato. Para que o Sr. fique mais sossegado, apagarei o sobrenome de sua esposa. Fico triste apenas de ver como sua esposa não sustenta o que diz e covardemente apaga suas opiniões. Parabéns é de sociólogos assim que o Brasil precisa.




9 comentários:

Fabiano Bonfiglio disse...

"real sensação de ser mãe" puta merda.
Parabéns pelo texto.

alessandra migueis disse...

<3

Adriana Emery disse...

"Adoraria entrar nessa discussão mais tô revendo as minhas video-aulas para o curso de educação para as relações etnico-raciais e..." (Carolina)

Adoraria que ela estudasse tanto, e só pra começar, aprendesse a escrever a língua pátria.
"MAIS estou revendo minhas..." (????)
É MAS, sem i. Sinônimo de contudo, porém.

Quanto à discussão, só tenho uma coisa a dizer: Cada um deve parir por onde quiser e como quiser. Pariria pelo nariz se fosse possível. Não há absolutamente NADA nessa discussão que justifique esse radicalismo em defesa do parto normal.

Anônimo disse...

Grandes merdas!

Já esfregou na cara da "dotôra" que escreve "mais" no Facebook esse tratado macarrônico sobre a liberdade da mulher parir como bem entende? Uau. Que mulher esperta e libertária!

Agora pode voltar a brincar de tuíter.

Camilla Lopes disse...

Nem me referi ao erro dela, amigo, isso pra mim é o de menos. E você também pode voltar a fazer comentários anônimos em blog, valeu campeão.

@willard_captain disse...

Fizeram uma tira sobre esse comentarista anônimo aí: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=295390147244876&set=a.181209315329627.38166.181129068670985&type=1&theater

Camilla Lopes disse...

é o famoso (a) BUNDA DOÍDA!

Dani disse...

Por que as pessoas insistem em querer dizer que isso ou aquilo é melhor? Nós vivemos a era da liberdade de escolha - apesar de nossas escolhas serem quase sempre resultado da realidade a que estamos expostos.

De fato existem mulheres que nasceram para ser mães - acho lindo quem tem esse talento. Não é o meu caso, mas faço o melhor que posso e não mereço ser julgada por isso.

Sim, pari duas vezes - duas cesáreas. Acho primitivo demais ficar a mercê da natureza. Foram as minhas experiências PARTICULARES, como você teve a sua e como as mulheres de Papua Nova Guiné têm as delas.

A propósito, é triste ver como algumas mulheres não têm "culhão" suficiente para defenderem suas ideias. Os argumentos da Carolina são válidos, apesar de não serem verdade absoluta - nada o é. Desnecessário foi correr pra baixo da saia do marido (oh, meu herói!). Rs

Ah... Já escrevi demais. Excelente post.

Bj

Dani

Dani disse...

Por que as pessoas insistem em querer dizer que isso ou aquilo é melhor? Nós vivemos a era da liberdade de escolha - apesar de nossas escolhas serem quase sempre resultado da realidade a que estamos expostos.

De fato existem mulheres que nasceram para ser mães - acho lindo quem tem esse talento. Não é o meu caso, mas faço o melhor que posso e não mereço ser julgada por isso.

Sim, pari duas vezes - duas cesáreas. Acho primitivo demais ficar a mercê da natureza. Foram as minhas experiências PARTICULARES, como você teve a sua e como as mulheres de Papua Nova Guiné têm as delas.

A propósito, é triste ver como algumas mulheres não têm "culhão" suficiente para defenderem suas ideias. Os argumentos da Carolina são válidos, apesar de não serem verdade absoluta - nada o é. Desnecessário foi correr pra baixo da saia do marido (oh, meu herói!). Rs

Ah... Já escrevi demais. Excelente post.

Bj

Dani