30 de out de 2007

As impressões dos dias


Ontem antes de anoitecer factualmente, esbarrei em um pitboy, um desses malhadinhos tão comuns à essa cidade histérica e cheia de modismos. Ele me chamou de idiota, eu o chamei de babaca, então ele obviamente me chamou de gorda e retruquei que até poderia sê -lo, mas jamais esqueceria o meu cérebro na máquina de supino. Ele quis me bater e consegui fugir para encontrar a Priscila. Naturalmente fiquei de mau humor, lógico que tenho complexo. Um ex - namorado meu, em parceria com outra duas débeis disse que o fato de eu apenas me divulgar por fotos do rosto é por eu ser gorda, ninguém, inclusive eu, justifica o contrário. Estão certíssimos, os débeis. E que vão para o inferno. Priscila disse que eu estava chata, não tinha vontade de falar realmente, fiquei de bode, pensando no livro em que estava lendo há dois dias. Jane Austen por não ter o que fazer no século 19, fode a minha vida dois séculos mais tarde. Jane Austen vai salvar a pele das irmãs, e elas vão casar com os caras mais ricos do condado. A conversa interessou apenas quando falamos de M.. Priscila acha que ele gosta de mim, eu acho que ele é a pior coisa que me aconteceu, mas também gosto dele. Esqueçamos disso, me faz sofrer.
Por esses dias tive uma ótima notícia e sorri dentro do ônibus. Havia uma senhora, e de primeiro relance, pensei que fosse um travesti. No entanto, fosse ou não um travesti e vale lembrar que gosto muito do gênero, ela foi extremamente gentil em me felicitar por uma felicidade que nem era dela e sentida por mim, que nem mesmo conhecia. Aparentemente, parecia bem generosa. E me disse com sotaque italiano;

"Noi mulheres sofremos mais con otras mulheres, capisco?"

E mandou assim do nada, que sempre em uma situação de exposição a invejas e ciúmes de mulheres, eu fizesse um sinal de chifre com as mãos, tipo sinal heavy metal, só que de cabeça para baixo. Um pouco macabro, mas se você reparar, o que não é macabro nesta vida? O que eu tinha a perder? E ela se despediu;

" Ciau, bambina"

Eventualmente simpatizo com pessoas do ônibus, a maior parte do tempo as odeio. Só pensam em se sentar, matariam você para sentar, pode apostar. Mostro pra eles que estou cagando para sentar e tiro um livro da bolsa para ir lendo em pé. Inconscientemente eu digo;

"Olha vocês são tão medíocres que ficam aí querendo sentar, grande merda. Estou lendo, tenho cultura."

Eu penso esse tipo de coisa, sou medíocre tanto quanto acho que os passageiros são. Mas quem há de me ensinar a ser diferente? Hoje quase caí, porque estava em pé lendo. Quando vagou um banco e eu sentei, uma senhora evangélica disse;

"Foi a mão de Jesus que te segurou."

Fiquei sem graça e tudo. Mas agradeci e continuei lendo. Sou uma idiota, portanto. E quem há de dizer que não?

2 comentários:

Anônimo disse...

Acho que o pitboy ficou com dor de cotovelo, porque você não quis nada com ele.
Gostei da crônica porque. ao meu ver, mostra que a prova de inteligência é descobre que o cotidiano medíocre e não podemos valorizar coisas inúteis.

Anônimo disse...

Boa Bambina, boa!
Mas é justamente essa tua simpatia que a faz atrair desde uma Italianona, que mais parecia um travesti (aliás até ela descer do ônibus eu ainda pensava ser um traveco), até pitboys, sem cérebro (pleonasmo). Aparece de tudo e tenho gosto por ver como consegue colocar todo esse cotidiano em palavras!
Beijo