26 de jan de 2010

Moleques cheios de tragédia

Foto: Evandro Teixeira


Não sou proselitista de nada. Ainda, aos quase trinta anos, não sei se tenho dom de convencer ninguém e sou dada, de vez em quando, a um certo toque de autoajuda. E olhe que nem gosto de física quântica, neurolinguística e essas bobeiras que tentam explicar a pessoas que realmente não querem se conhecer ou não aceitam que são imbecis, como elas podem caminhar ou se jogar de uma forma melhor e com um toque de esperança. Vá lá, quem disse que conviver é fácil? Ano passado, me mandaram em um plantão que não oferecia nenhuma matéria em especial, cobrir uma "manifestação" extremamente babaca na Avenida Atlântica. Era um grupo de mais ou menos 100 pessoas protestando na tarde de domingo contra o "aquecimento global". Parecia uma cena de horror: Eles enfiaram uma das manifestantes que era cadeirante na frente do troço - com certeza com a ideia de que ela é deficiente física mas tá lá, protestando contra o aquecimento global. Era babaca, acreditem. Sou a favor de salvar a natureza, mas aquilo era um bando de gente que realmente não tinha nem o que fazer e nem o que falar. Não dei bola pra o papo "estamos aqui, bla bla bla". O fotógrafo fez uma ou duas fotos e vazamos de lá. Eu lembro disso porque nessa mesma Zona Sul de pessoa sempre assustadas, em especial, ontem, topei com 5 moleques do Morro do Andaraí foram curtir uma praia. Sem camisa e descalços os meninos - o mais velho com onze e o mais novo com 8 anos, a idade da Valentina. Imagina deixar a Valentina pegar um ônibus descalça para ir a praia? - o objetivo deles era surrupiar uma viagem de volta pra Zona Norte. No way boys! Na chuva, descalços, eles tavam lá no ponto do ônibus tentando a sorte e amaldiçoando os motoristas que não topavam levá-los, até que cheguei. Gosto de crianças e pouco me importa a procedência delas. Então começamos a conversar e aquela olhar de medo da população classe média.

"Ei, tia dá um trocado aí..."

O clássico, vez em quando fazem cara de mal, mas são crianças. Quem tem medo de criança? Só porque pode ser cracudo? É criança porra. Disse a ele que não tinha dinheiro.

"Cês não deveriam estar em casa já?"

Daí eles explicaram que tavam de bobeira na rua, querendo voltar pra casa, mas os motoristas de ônibus não paravam e que já tinham arrancado um dinheiro de uns gringos apiedados e não queria gastar com passagens. Disseram ainda, em tom de entrega, que o padeiro tirou a virgindade do Leonardo. Ahahaha, eles riam, o Leonardo não é mais virgem, tem oito anos.

"Mas o Leonardo perdeu a virgindade com quem?" - eu não sabia do padeiro da favela, ainda.

O padeiro levou o garoto para uns cantos lá da padaria no morro e abusou do menino. Para as crianças era um motivo de sacanear o garoto, como se ele tivesse uma participação ativa na história, como se ele quisesse perder a vida de moleque perto do forno, pensando na mãe (talvez), na avó, mas sem elas, porque quem é violentado não pode gritar. Vocês sabem, até o inferno é adaptável à vida de alguém, e continuou o show de chacotas trágicas. Eu já distribuía todinhos nessa hora.

"Aí, o pai dele tá preso, ahahahaha"

"E o teu, que é cracudo?"

"Vocês não eram irmãos?" - eles tinham dito que eram.

"O pai da gente é diferente e ainda tem duas irmãs que são de pais diferentes."

As pessoas no ponto do ônibus, claro, já estava pegando até táxis. No jornal é uma coisa, saber que essas situações existem, é outra história. Eu tento não me impressionar, por dois motivos: Se você chora ou se assusta muito, não é alguém confiável pra eles. Parece que as pessoas desse tipo de adversidade extrema - ao meu ver é - não buscam piedade, só identificação. Depois, onde é que você vive? Se for no Rio de Janeiro, é isso mesmo.

Moleques cheios de tragédias estão por todos os lados dessa cidade.

5 comentários:

Luana Vignon disse...

é que é mais fácil e limpinho desenhar cartazes e separar o lixo reciclável.

Augusto disse...

Só consigo pensar no menino e no padeiro, na brutalidade, covardia e mau caratismo da coisa. E nem sei bem o que penso, por conta de uma angústia que me dá.

Augusto disse...

Só consigo pensar no menino e no padeiro, na brutalidade, covardia e mau caratismo da coisa. E nem sei bem o que penso, por conta de uma angústia que me dá.

Renata disse...

Pena desses e de outros tantos.

@reginokaa disse...

Caralho! =(.