22 de out de 2007

Tua performance faz minha enxaqueca


Estou com uma enxaqueca horrorosa desde sexta - feira. Acho que sei o que deferiu essa porcaria, foi eu ter ido ao MOLA com a Priscila, aquilo não me fez bem. Não mesmo. O MOLA é um evento que acontece toda quinta - feira no Circo Voador, é de graça até certo horário e abre as portas para a arte livre, em suma, você se inscreve ou inscreve seu grupo e apresenta o que quiser. O que quiser. Pouco depois de chegarmos e de eu ter levado o nosso vinho escondido em minha bolsa e ainda por cima, ter passado descaradamente pela revista de bolsas, comecei a me irritar. Não sei o que há de errado comigo. Tem uma patologia psíquica, que por vezes acreditei fazer parte: os destímicos. Pessoas que vivem de mau humor e que não vêem graça em nada. Não vivo de mau humor, mas é muito difícil eu gostar das coisas. Tudo bem, estávamos lá eu e Priscila, tinha aquelas pessoas com dread locks no cabelo...porra, não tem perdão para dread locks, é féio, é sujo, você fica com aquela eterna cara de quem acabou de vender uma dúzia de pulserinhas de couro na praia, e vai investir o dinheiro na compra de durepox para fazer maricas de fumar maconha, um horror, um horror. Tinha menininhas vestidas iguais, sempre - o que eu tava fazendo lá de scarpin nos pés? Me senti uma velha de 26 anos. Pouco depois de chegarmos, iniciou -se uma "performance" - quero falar sobre isso, é muito sério: alguém pode me definir o que realmente significa essa coisa de "performance"? Só uma lembrança antes: há uns dois reveillons atrás, eu estava em São Paulo e fui bater na casa de pessoas que não conhecia e que nunca mais vi. A dona da casa era legal e tudo – a não ser é claro por eu ter tido que lavar a louça dela, naturalmente por ter ido parar lá sem ter sido convidada, a carioca escrota -, mas aí ela inventou de passar uns vídeos com umas “performances” dela. Tudo bem. Basicamente ela se enrolava toda em papel - filme, fora eu e o meu acompanhante, o pessoal da festa parecia estar gostando ou estava só puxando o saco da menina pelo rega - bofe, dá pra entender? Eu disse para o cara ao meu lado;

“Olha, acho que não gosto disso. Acho uma merda.”

O cara concordou. Depois descobri que ele era gringo e não entendia português, trabalhava na HBO. Voltemos ao Circo Voador na quinta - feira passada: entra uma garota no teatro tipo arena;

“Oi gente, eu estou muito feliz em estar aqui e blábláblá...Pois é, gente, eu vou apresentar uma performance. Vou ler um trecho da Clarice Lispector.”

Oh não meu Deus, pensei eu. Ela não ia fazer uma performance? Cadê o papel - filme? Por que Lispector?Por que elas adoram a Lispector? A culpa de eu não gostar disso é minha? Sou chata? Priscila vamos sair daqui!
Saímos do teatro arena. Encontramos um amigo e a mulher dele. Conheço o cara faz tempo, conversamos sobre o processo de escrever um livro e eu preguei a solidão como única saída para finalizar um trabalho desses. Esqueça os outros, não se preocupe com eles. Eu sei que o mundo parecerá em ebulição e que as pessoas sempre estão fazendo alguma coisa, enquanto você ainda não fez nada. Mas vá lá e veja o que estão fazendo. É muita besteirada. É performance.

Anunciaram outra performance, o vinho me deixou mais relaxada e disposta a caçoar da próxima “atração” - sim, sou aquela que ri da cara dos outros. Você pode rir da minha cara também, mas garanto que faço isso melhor do que ninguém. Sabe quem sou eu? O coringa.
Era uma garota com um vestidinho branco de feira e uma meia preta, nota zero pro figurino dela. Ao meu lado duas senhoras, a quem logo tive de perguntar;

“A senhora é parente da moça?”

“Não, o meu filho é o técnico de som.”

“Ah, que bom. Então eu posso falar mal dela o quanto eu quiser!”

“Pode falar, minha filha”

Já tive problemas com a língua. Juro que uma vez eu maldisse a Ivete Sangalo para a presidente do fã – clube Recife da cantora. Ela levantou da mesa e ficou aquele climão. Quando já está tudo cagado, o que a gente faz? Se joga;

“Ah, ainda bem que ela se foi mesmo. Eu é que não queria jantar com presidente de fã – clube. Que merda, né?”

Bem, eu me desvirtuo do assunto, mas voltando à garota da performance e do vestido chinfrim: ela começou a falar um monte de asneira do tipo;

“Dor... consciência...minha beleza...é roubada!”

Fazia parte da “performance” ela rebolar. Então a porcaria toda consistia em rebolar e falar mais asneiras...de repente, uma sapatinha (sempre tem a sapatinha fã da gatinha- artista. Vocês já perceberam? A amiga sapatinha apaixonada e muito da filha - da - puta por ter dito à gatinha que a “performance” dela era legal.) e entrega um espelho pequeno para a garota. E...olha só, que original...ela quebra porra do espelho! E graças a Deus acaba a “performance”. Depois a amiga apaixonada e staff, vai recolher os cacos do espelho. Quase gritei pra ela sair dessa. É fato que um dia a gatinha - artista vai querer dar pra um cara mais velho, um escritor ou um diretor de teatro. Elas sempre fazem isso. Nossa...as pessoas se repetem como cartas de baralho. Todos os dias em minhas orações eu peço a Jesus Cristo que alguém me surpreenda, que me faça gostar das coisas.

Saímos irritadas do Circo Voador e fui pra casa muito feliz em poder voltar para os meus livros, meus filmes, o pay per view da TV à cabo, minha mãe e a Valentina. Depois, pela manhã do dia seguinte, a enxaqueca que até agora está aqui. Lembra daquela novela Roda de Fogo? Em que o Tarcísio Meira tinha um tumor no cérebro e por isso ele brilhava em umas cenas de dor de cabeça fortíssima? Eu me vejo assim. Claro que não tenho tumores. Afinal, pela patologia, psicologia e demais apetrechos de engodo, sou só uma destímica.

6 comentários:

Anônimo disse...

Morri de rir, mas fiquei imaginando você analisando minha perfomance com aquele rosto enigmático e com a mão no queixo( como aquela foto sua que postou outro dia) fiquei com medo e um com vontade de nunca mais sair de casa...

Carola Medina disse...

hahahahaha, mulher, que evento é esse flor? Cruz credo. Olha só vou a sarau do bac, tá doida? e qdo começam a ler o rosa? e coloca, sotaque? hahahaha

rafael disse...

eu a entendo perfeitamente. pessoas chatas são como chatos, coçam até sangrar...

Anônimo disse...

Muito engraçado,Cacá. Faz tempo que eu não me divertia desse jeito com um texto,
beijos,
M.M

Amanda disse...

Camilla, roubei um trecho desse seu texto, tá lá no meu blogue!
beijo

Camilla Lopes disse...

Vamos as respostas:
Anônimo; pára de fazer performance e seja um "amigo da escola".
Amanda; você deveria concordar com tudo o que eu falo, essa sua rebeldia não vai levar você a lugar nenhum. Quando você ficar mais velha, verá que estou cem por cento certa. Ahá.
beijos